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Caminhamos na estrada de Emaús
 Aloísio Parreiras, Brasília/DF

As aparições do Cristo vivo e ressuscitado são cátedras de onde brotam fecundos ensinamentos. Se pararmos para meditar nas aparições do Cristo ressuscitado, à luz da fé, vislumbraremos que a misericórdia de Deus em favor dos homens é uma ação contínua. Vamos agora, guiados pelo Espírito Santo, adentrar na passagem de Emaús. Pelos relatos do Evangelho, temos conhecimento de que, no Domingo da ressurreição, Jesus Cristo foi ao encontro dos dois discípulos de Emaús e caminhou com eles, como um viajante. Desde o início da caminhada, Cristo, por meio de palavras e de gestos, revelava a Cléofas e seu companheiro: “Eu sou o primeiro, o último e o vivente. Estava morto mas agora vivo!” (Ap 1,17-18).

A caminhada de Emaús é marcada por passos lentos, pelo silêncio, pela tristeza e pela ausência de ideais. Cléofas e seu companheiro, por alguns momentos, se deixam sucumbir pelo cansaço e, por isso, deixam cair no esquecimento a advertência que São Paulo nos dá: “Não descuides do dom da graça que há em ti!” (1 Tm 4,14). Mas o descuido não era definitivo pois, de um modo misterioso, estes dois discípulos de Emaús, conseguem nos dizer: “Eu dormia, mas meu coração velava!” (Ct 5, 12). Lutemos com afinco contra o cansaço e o desânimo. Com humildade, é preciso que saibamos velar em atitude de oração. Em oração, com os ouvidos da alma bem abertos, poderemos dialogar com Cléofas e ouvir o que ele nos diz: “O Senhor foi convosco, porque vós fostes com Ele. Se o buscardes, achá-lo-eis; mas, se o abandonardes, Ele vos abandonará!” (2Cr 15,2). Esta é uma das primeiras lições que temos que aprender, trilhando o caminho de Emaús: Cristo ressuscitado caminha conosco e não nos deixa sozinhos. “Se hoje ouvirdes a Sua voz, não endureçais os vossos corações!” (Sl 94,8). Com o coração pulsando de santidade, examinemos nossas vidas, amparados pela Boa Nova de Cristo, e sintamos em nosso íntimo que o bem que há em nós é o somatório de inúmeras graças que Deus nos outorgou, pois “de Sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça”. (Jo 1,16)

Uma segunda lição que devemos aprender com os dois discípulos de Emaús é que, sem a presença de Deus em nossas vidas, somos apenas caminhantes sem destino, uns peregrinos conturbados. Diante das conturbações, é essencial saber proferir: “Senhor, foi por teu favor que me concedestes honra e poderio; mas apenas escondeste de mim o teu rosto, fiquei conturbado”. (Sl 29,8). Na caminhada da fé, em alguns momentos, muitos de nós atravessamos dias escuros, noites de insônia e de amargura. Nestes momentos, é de suma importância que saibamos dar profusão ao ardor do nosso coração, que nos fará vislumbrar que “a graça por Jesus Cristo nosso Senhor é concedida com tal liberalidade, a quem aprouver a Deus concedê-la, que sem ela não podemos perseverar, ainda que quisermos, mas é tão copiosa e eficaz que nos move a querer o bem”. (Santo Agostinho, “De correctione et gratia”, cap.XI,32). A graça é a essência do amor e, ao mesmo tempo, é o centro para o qual deve convergir toda a existência humana, para que seja revestida de justiça e de santidade. Nos nossos dias, Cristo continua a nos dizer: “Sois insensatos e lentos de coração para crer em tudo o que os profetas anunciaram!” (Lc 24, 25). Agindo assim, Ele nos demonstra que “a graça não exclui a correção, e a correção não nega a graça”. (Santo Agostinho, op.cit, cap XVI,49).

Uma terceira lição que aprendemos em Emaús é que, por meio das Sagradas Escrituras, Deus nos orienta e ensina. Ler as Escrituras é se predispor a ouvir a Deus, pois “a Escritura não é uma coisa do passado. O Senhor não fala no passado, mas fala no presente, fala hoje conosco, dá-nos luz, mostra-nos o caminho da vida, dá-nos comunhão e assim nos prepara e nos abre à paz”. (Papa Bento XVI, “Audiência” em 29 de março de 2006). Por intermédio das Escrituras, podemos perceber que a comunhão é verdadeiramente uma Boa Nova que extravasa nosso ser e nos leva a suplicar: “Permanece conosco, Senhor!” (Lc 24, 29). Cristo vivo e ressuscitado caminha conosco e O encontramos pessoalmente na Eucaristia. A fração do Pão deve ser, essencialmente, o gesto prioritário da nossa identificação com o nosso Redentor. Diante da Mesa Eucarística, podemos professar: “Jesus está no Santíssimo Sacramento como meu Salvador. Chega-se a mim para comunicar-me as Graças da Redenção, aplicar-me os Seus Méritos, fazer correr o Seu Sangue divino sobre o meu corpo e minha alma”. (São Pedro Julião Eymard, “A Divina Eucaristia”, volume 5).

Neste caminho de Emaús, é necessário ainda que aprendamos que a Ressurreição de Jesus Cristo é um forte apelo à realização de um sólido apostolado. É a plena certeza de que somos amados por Deus, que nos impulsiona a novas messes. Inspirados nos discípulos de Emaús, temos que permitir que o Espírito Santo nos conduza a um novo Pentecostes que nos leve a testemunhar com coragem, afinco e firmeza: “É verdade, o Senhor ressuscitou!” (Lc 24,34). A contínua união com nosso Redentor nos fará discernir que um fecundo apostolado é conseqüência da comunhão com Jesus Cristo!

Deixemo-nos contagiar pela atmosfera de santidade que emana do caminho de Emaús. Aprendamos com Cléofas e o seu companheiro a abrir nossos corações para ouvir o que Cristo tem a nos dizer. Ouçamos Suas admoestações e sintamos, no fundo do fundo da nossa alma, a certeza de que hoje e sempre precisamos de recolhimento para escutar a voz de Deus. Em íntima união com o Cristo vivo e ressuscitado, caminhemos com júbilo e alegria, anunciando ao nosso próximo: “Por maiores que sejam os teus sofrimentos, tua vitória sobre eles está no silêncio”. Em silêncio, deixemos que a luz do Cristo ressuscitado transborde em nosso ser!

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